O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é um momento que pode mobilizar emocionalmente quem irá realizá-lo, pois atualmente é a principal forma de ingresso para o Ensino Superior, o que envolve expectativas e planos de vida. Diante de situações desafiadoras, é frequente que crenças negativas sobre si sejam ativadas, o que torna esse momento de pré-exame, ainda mais difícil.

Como faltam poucos dias para o Enem, ficar atento aos seus padrões de pensamento pode te auxiliar a lidar com o seu emocional nesse período pré-exame e durante o exame.

Padrões de pensamento diante do Enem: o que são e qual a importância?

Padrões de pensamento, são formas de interpretar os acontecimentos e o mundo ao nosso redor com uma tendência, com um viés cognitivo. Isso significa que a forma com que entendemos o que acontece na nossa vida não depende exclusivamente dos acontecimentos em si, mas sim da nossa forma de interpretar esses acontecimentos.

Pense um pouco: você conhece pessoas que diante de uma situação desafiadora e muito parecida, lidaram com essa situação de formas muito diferentes? Algumas delas podem ter evitado a situação, deixado de buscar o desejado por medo de não conseguir; outras seguiram em frente, mas o período foi permeado por tanta tensão e ansiedade diante do desafio, que sentiram-se paralisadas; já outras sentiram-se desafiadas, no entanto, isso as deixou entusiasmadas e confiantes. Isso se deve a um fenômeno individual: a nossa interpretação!

A nossa interpretação das situações tem relação direta com nosso humor e formas de encarar a vida: quando você pensa que nunca vai conseguir ser aprovado para uma universidade/faculdade a partir do Enem, é provável que se sinta triste e desmotivado, e com isso, aplique-se menos na realização da prova. É importante lembrar que nossos pensamentos podem ser 100% verdadeiros, 100% falsos ou em algum ponto intermediário. Lembre-se que só porque você pensa alguma coisa, não significa que ela seja verdadeira! Nesse aspecto, é importante estar atento aos padrões de pensamento que não contribuem com a realidade e podem te atrapalhar nesse momento pré-exame, afinal, nossos pensamentos sobre nós e sobre as situações tem relação direta com nossas emoções e formas de agir.

A seguir, apresentamos seis padrões de pensamento que podem te atrapalhar nesse momento pré-exame.

Padrões de pensamentos e formas de lidar com eles

1. Previsão do futuro: nesse padrão de pensamento, as pessoas antecipam o futuro em termos negativos e acreditam que o que acontecerá será tão difícil que não conseguirão lidar com isso. Nesse padrão, as pessoas podem ter pensamentos do tipo: “ficarei tão nervoso(a) na prova, que não conseguirei me concentrar nas questões”, ou “estarei tão ansioso que terei um branco”. Nesse exemplo, podemos refletir: o quanto temos de certeza que os fatos acontecerão como imaginamos? Pense sobre as situações que você se preocupou, pois previu que iriam acontecer. Elas se concretizaram? Nesse padrão de pensamento, as pessoas na maioria das vezes utilizam seu tempo se preocupando com previsões que dificilmente se concretizam ou possuem baixas possibilidades.

2. Rotulação: as pessoas com esse padrão de pensamento colocam um rótulo geralmente negativo e global em si, e podem ter pensamentos do tipo: ex.: “Eu não sou capaz”, “eu sou burro”, “eu não sou inteligente” com base em situações negativas muito específicas. Frequentemente, quem tem esse padrão de pensamento atribui a si uma característica com base em uma/algumas situações eventuais. Aqui cabe refletir: não ir bem em uma prova te torna burro? Ter um semestre ruim te torna incapaz? E assim por diante…

3. Supergeneralização: nesse padrão de pensamento, as pessoas consideram casos negativos e isolados e os generalizam, desconsiderando outras situações com desfechos positivos. Nesse padrão, as pessoas costumam ter pensamentos do tipo: “nesse último mês não consegui estudar o quanto planejei, o que significa que serei um fracasso na prova”. Nesse exemplo, podemos refletir o fato de quanto o último mês tem importância quando colocado em perspectiva ao lado do restante do tempo ao longo dos últimos anos que o estudante se preparou.

4. Abstração seletiva: nesse padrão de pensamento, as pessoas prestam atenção em um ou poucos detalhes e não conseguem ver o panorama inteiro, assim, podem ter pensamentos:“na escola eu não tenho boas notas em física, isso significa que vou zerar a prova”. Cabe destacar nesse exemplo que ter dificuldade em física pode levar a uma pontuação mais baixa nesta área do conhecimento, mas não significa necessariamente que isso se estende às outras áreas do conhecimento, como é expresso no pensamento sobre zerar aprova.

5. Comparações injustas: as pessoas com esse padrão de pensamento se comparam com outras pessoas que parecem se sair melhor do que elas, assim se consideram inferiores, tendo pensamentos : “ela é mais inteligente do que eu, por isso não vou passar na prova”. Nesse exemplo, vale lembrar que cada pessoa tem uma história individual e é importante refletir sobre o que te traz de benefício se comparar com os outros.

6. Ampliação/minimização: nesse padrão de pensamento, as pessoas avaliam a si e as situações, ampliando os aspectos negativos e/ou minimizando os aspectos positivos, tendo pensamentos como: “nos simulados eu fiquei com nota 650 e no seguinte com 800 na redação, está muito longe do que eu quero, isso mostra como o meu desempenho foi ruim”. Nesse exemplo, é demonstrado o quanto que nesse padrão de pensamento amplia-se o fato do estudante não ter chegado onde almejou, e minimiza-se a sua evolução.

Como lidar com esses padrões de pensamento

Alguns dos pensamentos acima podem ficar na sua cabeça e contribuir para que você se sinta nervoso, ansioso, preocupado de uma forma que seja difícil para você lidar antes ou durante o exame do ENEM. Esses pensamentos podem estar conscientes ou não para você. Assim, pode ser que alguns desses pensamentos você consiga identificá-los sozinho e outros não. De qualquer forma, para lidar com esses padrões de pensamento que não te ajudam na hora do ENEM, o primeiro grande passo é reconhecer de alguma forma que você pensa assim. O segundo passo é que você precisa começar a se fazer algumas perguntas difíceis, que podem incluir os seguintes itens:

Qual a vantagem de pensar dessa forma (com o padrão de pensamento)?

Nesse caso, você deve refletir o quanto esse padrão de pensamento influencia o seu estado de humor e o quanto te auxilia a lidar com as situações. Por exemplo, se você pensar que os outros são melhores que você, reflita: pensar dessa forma, te traz qual vantagem?

Quando eu penso com o padrão de pensamento, que comportamentos eu tenho?

Nesse caso, você deve refletir qual a relação dos teus pensamentos com a forma que você lida com as coisas. Por exemplo, quando você pensa que não vai conseguir passar na prova, que comportamentos você tem? Você se aplica mais ou menos na resolução das questões da prova?

Que fatos me fazem pensar que esse pensamento é verdadeiro?

Nesse caso, você deve buscar fatos, que são aspectos que todas as pessoas concordam sobre uma situação, como na afirmativa:“hoje é quarta-feira”. No pensamento: “eu não sou capaz de ser aprovado em alguma universidade/faculdade com a nota do ENEM”, busque fatos na sua história de vida que apoiam esse pensamento que você não é capaz, e depois fatos que contradizem esse pensamento. Você também pode perguntar para amigos e familiares para avaliar se esses pensamentos de que você não é capaz condizem com a realidade 0%, 100% ou em algum ponto intermediário, ou são reflexos do seus padrões de pensamento.

Você identifica com alguma frequência algum(uns) desses padrões de pensamento na sua forma de pensar? O formulário em anexo te auxilia a refletir sobre o seu estilo de pensamento, em que você poderá avaliar a partir dos seus exemplos e classificar o quanto você acredita neles (intensidade) e a frequência ao longo da semana que estão presentes na sua cabeça (ver formulário em anexo).

Não deixe esses padrões de pensamento te paralisarem. Ao invés disso, tente concentrar-se neles e buscar formas alternativas de pensar sobre você e sobre o seu futuro. Se você seguiu todas essas orientações e ainda tem a sensação de que não consegue lidar com esses padrões de pensamento, é importante conversar com um psicoterapeuta especializado.

Bruna Almeida
CRP: 07/30896

Referências:
BECK, J. Terapia Cognitivo-Comportamental: teoria e prática. 3 ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.

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